quarta-feira, 4 de maio de 2016

Videogames ajudam a reverter lesões traumáticas no cérebro

 
*JOGOS DE TIRO EM PRIMEIRA PESSOA PODEM SER USADOS NA REABILITAÇÃO DE PACIENTES QUE SOFREM DE TRAUMAS NO CÉREBRO


   Os jogos de tiros em primeira pessoa, como “Halo”, “Call of Duty” e “Battlefield”, já foram associados várias vezes a episódios de violência. Mas ferramentas são apenas ferramentas, e a prova disso é que esses mesmos jogos poderão ser usados em breve para auxiliar no tratamento e na recuperação de pacientes que sofreram lesões cerebrais traumáticas. A conclusão é da neuropsicóloga Alexandra Vakili, da Macquarie University, na Austrália.

Lesões cerebrais traumáticas podem debilitar muito os pacientes e deixá-los incapazes de cumprir tarefas básicas do dia a dia, como tomar banho, se alimentarem sozinhos e pegar um ônibus para qualquer lugar. Eles também ficam incapacitados de voltar a trabalhar. Tudo isso porque a lesão faz com que os pacientes tenham problemas no processamento de informações básicas.

“Esse tipo de lesão pode ter implicações ao longo da vida. A reabilitação é um processo longo, mas sem intervenção, o paciente pode nunca mais voltar às atividades”, explica a pesquisadora no artigo publicado no periódico “Cogent Psychology”.
* “Call of Duty”. Jogos demandam muita atenção e realização de multitarefas, por isso podem ser efetivos na reabilitação

Vakili realizou a experiência com 26 pacientes de dois centros de reabilitação de Sidney, todos homens, com idades entre 18 e 65 anos. Eles foram colocados para jogar “Medal of Honor: Rising Sun” em um videogame. Durante o experimento, também foram treinados para resolver problemas e elaborar estratégias para resolver os desafios do jogo. O que a pesquisadora descobriu foi que os participantes demonstraram melhor nível de atenção e maior capacidade de processar informações após o experimento.

Para a neurocientista Ângela Maria Ribeiro, professora do programa de pós graduação em neurociências da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), essas melhoras se devem às próprias características desse tipo de jogos. “Em geral, eles dependem de muita atenção, pois são montados com multitarefas. A pessoa precisa prestar atenção em várias coisas para conseguir fazer acertos”, explica.

Para a especialista, ainda, os jogos eletrônicos estimulam a neurogênese, ou a criação de novos neurônios. Isso contribui para a plasticidade do cérebro, processo fundamental na recuperação de lesões e de doenças degenerativas.

Gênese
Antigamente, pensa
va-se que os neurô-
nios não se reprodu
ziam. Atualmente, já 
se sabe que o hipo-
campo produz neurô-
nios a vida inteira.

Tecnologia permite estudar técnicas 

Com o avanço das tecnologias, a ciência tem conseguido comprovar a eficiência de práticas que antes não podiam ser medidas. A atividade cerebral enquanto uma pessoa joga um videogame é uma delas.

Outra atividade que já é comprovadamente benéfica para a neuroplasticidade é a prática de meditações do tipo “mindfulness”. A técnica consiste em manter a mente com foco no momento presente e se concentrar no que está acontecendo exatamente agora.

“A meditação é uma prática milenar no mundo oriental. Mas, no ocidente, sempre deixamos de lado por não ser algo científico. Hoje está sendo possível fazer esses estudos e comprovar esses benefícios”, constata a neurocientista Ângela Maria Ribeiro, da UFMG. Essas pesquisas já comprovaram que a meditação aumenta a espessura de uma região do córtex pré-frontal e melhora a atenção – habilidade fundamental para a memória.

NOTA: O uso racional do vídeo games pode sim trazer benefícios em diversas áreas da cognição além de criar um ambiente que favorece relações sociais entre jogadores.

   Os jogos apresentam desafios aos jogadores, e para serem superados é preciso uma abordagem especifica, seja um planejamento estratégico ou reações rápidas, sendo que geralmente é preciso uma combinação das duas. Como exemplo de jogos que requerem as duas habilidades, pode se citar a série Age of Empires. Nela, os jogadores precisam construir suas civilizações, geralmente com o objetivo de destruírem as inimigas. Para tanto, é necessário que se colete recursos naturais, pesquise novas tecnologias e construa exércitos. Ou seja, o jogador precisa controlar eficientemente dezenas de personagens, montar sua estratégia e ser capaz de adaptar-se a estratégia do adversário.

   Todo esse processo exige pensamentos lógicos, tomada de decisões e movimentos ágeis com o mouse. Pode-se dizer que algumas ou todas essas características estão presentes com maior ou menor intensidade nos jogos. Acredita-se que o treinamento de habilidades por meio de jogos as melhore não apenas no contexto do jogo, mas também quando forem exigidas na vida.

 Além disso, vários jogos promovem a cooperação dos jogadores. Essa cooperação tem seu exponencial em MMORPGs, do inglês Massivelymultiplayer online role-playing game. Nestes jogos, o individuo emerge em um mundo povoado por vários outros jogadores como ele, e para realizar feitos como matar os monstros mais poderosos, dominar castelos, etc. precisa se aliar a outros jogadores, formando um grupo temporário ou um clã, onde cada jogador terá seu papel que precisa ser desempenhado com eficiência e cooperação para que se alcance a vitória objetivada.
   Esses ambientes diferenciam-se, por exemplo, de salas de bate-papo, no MMORPG os jogadores compartilham mais que conversas, as interações são muito mais ativas, e podem prolongar-se por anos, formando verdadeiras amizades, e desenvolvendo a cooperação.

"Por tudo isso, jogue com moderação."

TEXTO:RAQUEL SODRÉ
EDIÇÃO DE CONTEÚDO:ROBINSON ORTIZ

Nenhum comentário:

Postar um comentário